PONTE DE LIMA CORRE VACA DAS CORDAS NO PRÓXIMO DIA 3 DE JUNHO
Existe desde tempos remotos na
vila de Ponte de Lima o singular costume de, anualmente na véspera do dia de
Corpo de Deus, correr uma vaca preta presa e conduzida pelos ministros da
função que assim procedem com o auxílio de três longas cordas. Esse divertimento
cuja verdadeira origem se desconhece, mas que ainda se mantém e parece ganhar
ainda mais popularidade, atraindo à terra numerosos forasteiros, era outrora
executada por dois moleiros que a isso eram obrigados sob pena de prisão,
conforme determinavam as posturas municipais. Muitos desses moleiros eram
oriundos da Freguesia de Rebordões-Santa Maria, localidade que possuía
numerosos moinhos e que, com a sua decadência, os moleiros da terra emigraram
para o Brasil, fixando-se muitos em Goiás.
Ao começo da tarde, uma vaca preta é presa ao gradeamento da
igreja Matriz, aí permanecendo exposta à mercê do povo que outrora, num hábito
que com o decorrer do tempo se foi perdendo, por entre aguilhoadas e gritaria
procurava embravecer o animal a fim de que ele pudesse proporcionar melhor
espetáculo. Invariavelmente, às dezoito horas, lá aparecem os executantes da
corrida que, após enlaçarem as cordas nos chifres da vaca, desprendem-na das
grades e dão com ela três voltas em pesado trote em redor da igreja após o que
a conduzem para a Praça de Camões e finalmente para o extenso areal junto ao
rio Lima. E, por entre enorme correria e apupos do povo, alguns recebem a
investida do animal aguilhoado e embravecido ou são enredados nas cordas,
enquanto as janelas apinham-se de gente entusiasmada com o espetáculo a que
assiste.
Quando soam as trindades, o espetáculo termina e dá lugar aos
preparativos dos festejos que vão ocorrer no dia seguinte. As gentes limianas
decoram as ruas com um tapete florido feito de pétalas e serrinha por onde a
procissão do Corpo de Deus irá passar.
Com atrás se disse, desconhecem-se as verdadeiras origens deste
costume antiquíssimo. Contudo, uma tela de Goya que se encontra exposta no
Museu do Prado, em Madrid, leva-nos a acreditar que o mesmo era mantido noutras
regiões da Península Ibérica. De igual modo, a tradicional corrida à corda que
se realiza nos Açores sugere-nos ter este costume sido levado para aquelas
ilhas pelos colonos que as povoaram a partir do continente.
Em meados do século dezanove, o cronista pontelimense Miguel dos
Reys Lemos arriscou uma opinião baseada na mitologia, a qual publicou nos
"Anais Municipais de Ponte de Lima" e que pelo seu interesse a seguir
reproduzimos:
"Segundo a mitologia, Io, filha do Rei Inaco e
de Ismene - por Formosa e meiga - veio a ser requestada por Júpiter. Juno, irmã
e mulher deste apaixonado pai dos deuses, que lia no coração e pensamentos do
sublime adúltero e velava de contínuo sobre tudo quanto ele meditava e fazia,
resolvera perseguir e desfazer-se da comborça que lhe trazia a cabeça numa
dobadoura.
Ele, para salvar da vigilância
uxória a sua apaixonada, metamorfoseou-a em vaca: - mas Juno, sabendo-o, mandou
do céu à terra um moscardo ou tavão, incumbido de aferroar incessantemente a
infeliz Io, feita vaca e de forçá-la a não ter quietação e vaguear por toda a
parte.
Io, assim perseguida e em tão
desesperada situação, atravessou o Mediterrâneo e penetrou no Egito: aí,
restituída por Júpiter à forma natural e primitiva, houve deste um filho, que
se chamou Epafo e, seguidamente, o privilégio da imortalidade e Osiris por
marido, que veio ter adoração sob o nome de Ápis.
Os egípcios levantaram altares a
Io com o nome de Isis e sacrificavam-lhe um pato por intermédio de seus
sacerdotes e sacerdotizas: e parece natural que, não desprezando o facto da
metamorfose, exibissem nas solenidades da sua predilecta divindade, como seu
símbolo, uma vaca aguilhoada e errante, corrida enfim.
Afigura-se-nos que sim e,
portanto, que a corrida da vaca, a vaca das cordas, especialmente quanto à
primeira parte, as três voltas à roda da Igreja Matriz, seria uma relíquia dos
usos da religião egípcia, como o boi bento, na procissão de Corpus-Christi, é
representativo do deus Osiris ou Ápis, da mesma religião. E esta foi
introduzida com todos os seus símbolos na península hispânica pelos fenícios,
aceite pelos romanos que a dominaram, seguida pelos suevos e tolerada pelos
cristãos em alguns usos, para não irem de encontro, em absoluto, às enraizadas
crenças e costumes populares.
É que essa Ísis, a vaca de
Júpiter, a deusa da fecundidade, teve culto especial precisamente na região
calaico-bracarense, na área de Entro Douro e Minho; no Convento
Bracaraugustano, ou Relação Jurídica dos Bracaraugustanos (povos particulares
de Braga), de que era uma pequeníssima dependência administrativo-judicial o
distrito dos límicos, prova-o o cipo encravado na face externa dos fundos da
vetusta e venerada Sé Arquiepiscopal, - cipo que a seguirtranscrevemos
inteirado, conforme a interpretação que em parte, nos ensinou e em parte nos
aceitou o eruditíssimo professor do Liceu, Dr. Pereira Caldas:
ISID · AVG · SACRVM
LVCRETIAFIDASACERD · PERP · P ROM · ET · AVG
CONVENTVVSBRACARAVG · D ·
INTERPRETAÇÃO
ISIDI AUGUSTAE SACRUM;
LUCRETIA FIDA SACERDOS PERPETUA POPULI ROMANI ET AUGUSTI, CONVENTUUS
BRACARAUGUSTANORUM DICAT
TRADUÇÃO
"SENDO LUCRÉCIA FIDA
SACERDOTISA PERPÉTUA DO POVO ROMANO E DE AUGUSTO, O CONVENTO DOS
BRACARAUGUSTIANOS DEDICA A ISIS AUGUSTA (OU: À DEUSA ISIS) ESTE MONUMENTO
SAGRADO"
Acredita-se, porém, que, no local onde se ergue a igreja matriz
de Ponte de Lima existiu outrora um templo pagão onde se prestava culto a uma
divindade sob a forma de uma vaca representada num retábulo, o qual era trazido
para o exterior e efetuava as referidas voltas ao templo. Em todo o caso, e
atendendo à elevada importância deste animal na economia doméstica de uma
região tão propícia à sua criação em virtude dos seus pastos verdejantes, é
perfeitamente natural que a vaca tenha aqui sido venerada como símbolo de
fertilidade e de abundância e, desse modo, prestando-lhe o devido culto. Não é
completamente injustificada a frequente representação deste animal nomeadamente
no artesanato da região minhota, ao qual a barrista barcelense lhe deu cores e
vivacidade que o ajudaram a tornar-se famoso em todo o mundo.

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