QUEM FOI A VIMARANENSE VIRGÍNIA MOURA?
Virgínia
Moura, engenheira, militante do Partido Comunista Português desde 1933, nasceu
em S. Martinho do Conde, Guimarães a 19 de Julho de 1915 e faleceu no
Porto a 19 de Abril de 1998, com 82 anos. Filha de uma professora primária, que
sendo mãe solteira enfrentou situações de injustiça, incluindo da própria
família, pelo facto de ter sido mãe sem ser casada.
Apesar de ter sido rejeita pelo pai e avós, teve uma infância
feliz em S. Martinho do Conde, “ vivi ali uma infância feliz e alegre…Os
habitantes dessa terra foram a minha primeira família. A verdadeira aceitou mal
o meu nascimento e tanto o meu avô como os meus tios mais velhos cortaram
relações com a minha mãe, durante dez anos” (MOURA, Virgínia 1996).
Com dez anos prepara-se para entrar no liceu. A guerra acabara
há pouco tempo, as consequências ainda se sentiam, as dificuldades económicas
aumentaram. Para ir para o Liceu teve que obter notas suficientes para a bolsa
de estudo. Um dia seu avô encontrou-a na casa de uma prima, no Porto. Foi ter
com ela e beijou-a com as lágrimas nos olhos. A partir desse momento sua mãe
pode contar com o seu apoio. Nos anos 20 transferem-se para Vila de Conde. Tudo
passou a ser mais difícil. A mãe quase não saia de casa a não ser para dar
aulas, e Virgínia Moura era rejeitada pelas colegas “A nossa vida não foi
fácil. Lembro-me de ouvir colegas do Liceu dizerem, baixinho, que gostariam que
eu fosse a casa delas, mas que tal não podia ser porque o meu pai não era
casado com a minha mãe” (MOURA, Virgínia, 1996).
Nessa altura, Virgínia Moura e sua mãe, recebiam a visita de um
familiar que a marcou. Ele simpatizava com o socialismo, lia muito e
emprestava-lhe livros que falavam de um outro mundo diferente, “Saber da
existência de países onde uma mulher não seria tratada como a minha mãe foi e
como eu era…”. Ficou marcada com outra ocorrência, a morte de um estudante de
nome Branco, numa iniciativa académica no Porto.
Nos anos 30 foi estudar para o Porto. No liceu, feminino,
sentiu-se marginalizada, tanto por colegas como por alguns professores, pensou
mesmo deixar de estudar. Foi então que conheceu António Lobão Vital,
participante de todas as guerras académicas da altura, que ambicionava, também,
um mundo diferente. Virgínia Moura encontrou o companheiro da sua vida. Naquela
altura não fazia ideia do que era um partido, apenas pressentia a possibilidade
de fazer algo para modificar a situação existente à sua volta, as injustiças, a
coação, o medo.
Virgínia Moura e António Lobão Vital foram extraordinários
obreiros de pequenas e grandes lutas pela liberdade, pacientes construtores da
unidade antifascista, assumindo exemplarmente um confronto, sem concessões, com
o regime opressor vigente.
Foram, manifestamente, dois dos mais destacados rostos legais do
PCP (ainda na clandestinidade). Constituíram uma referência, política e moral,
fundamental para gerações de jovens, de trabalhadores e distintos intelectuais.
Em 1933, Virgínia Moura ligou-se ao PCP tendo nesse ano
participado na organização da secção portuguesa do Socorro Vermelho
(Organização de Socorro aos Presos Políticos Portugueses e Espanhóis). Foi a
primeira mulher portuguesa a obter o título de engenheira civil, foi-lhe negado
o acesso à Função Pública, pois a ficha policial já então a assinalava como
séria opositora da ditadura fascista. Cursou ainda Matemáticas e frequentou a
Faculdade de Letras de Coimbra. Desenvolveu uma intensa actividade cultural no
Porto nos anos quarenta e cinquenta, tendo colaborado (sob o pseudónimo de
Maria Selma) em vários jornais e revistas, promovido a edição da revista «Sol
Nascente» e diversas conferências com a participação de Teixeira de Pascoais,
Maria Isabel Aboim Inglês e Maria Lamas.
A sua intensa, firme e corajosa actividade política contra o
regime fascista levou-a, em 1949, à primeira prisão o que, até ao 25 de Abril,
viria a repetir-se 15 vezes. Nove vezes processada e três vezes condenada,
agredida inúmeras vezes pela polícia política (PIDE) durante actos públicos de
afirmação democrática, a vida de Virgínia Moura foi um confronto constante com
o fascismo. Participou nos combates do MUD (Movimento de Unidade Democrática) e
do Movimento Nacional Democrático; nas batalhas políticas em torno das
“presidenciais” com as candidaturas de Norton de Matos, de Ruy Luís Gomes, de
Humberto Delgado; nos congressos da oposição democrática e nas campanhas
políticas de massas desenvolvidas em torno das farsas eleitorais para a chamada
Assembleia Nacional, em 1969 e 1973; nas pequenas e grandes lutas contra a
repressão, pela solidariedade com os presos políticos, pela melhoria das
condições de vida do povo, pela igualdade e afirmação dos direitos das mulheres
e da sua participação na vida política, pela criação das condições que
conduziram ao derrubamento do fascismo e à Revolução de Abril, de que foi
igualmente participante entusiástica.
Depois do 25 de Abril e nas novas condições de liberdade,
Virgínia Moura continuou a luta em defesa e consolidação do regime democrático,
pelas transformações capazes de assegurar uma sociedade mais justa, por um
Portugal de Abril rumo ao socialismo.
Virgínia Moura foi distinguida com a Ordem da Liberdade e
recebeu a Medalha de Honra da Câmara Municipal do Porto e do Movimento
Democrático de Mulheres. Por ocasião do seu octogésimo aniversário, foi-lhe
prestada, no Palácio de Cristal, uma homenagem, tendo sido então publicado o
livro «Virgínia Moura, mulher de Abril» – Álbum de memórias (corpopublico)
Carlos Fonseca





Comentários
Enviar um comentário