VIANA DO CASTELO: CARDIELOS E A LENDA DE D. SAPO
No período medieval, os senhores feudais detinham
um poder que por vezes era ilimitado. Alguns fidalgos impunham no seu feudo uma
revoltante prática: arrogar o "direito da primeira noite” – onde, todas as
noivas recém-casadas, supostamente virgens, seriam desfloradas pelo senhor
antes mesmo de se deitarem com os seus maridos.
Esta e outras práticas aviltantes causavam a
revolta do povo que muitas vezes se submetia a elas por medo das represálias ou
dependência.
No Alto Minho viviam muitos senhores feudais mas,
um deles em particular – D. Florentim Barreto – vivia perto de Viana do
Castelo, na freguesia de Cardielos, e seguia à risca o vil direito. Fosse a
noiva baixa, alta, gorda, magra, bonita ou feia, todas elas conheciam o D.
Florentim.
O povo vivia revoltado. Não só pelos impostos
infames que este cobrava ou pela altivez e arrogância com que a todos brindava…
tinham-lhe um ódio de morte pela desonra das suas virgens e, batizaram-no de D.
Sapo.
Ora, conta a lenda que um jovem destemido de
Cardielos, que havia sido criado pelo D. Sapo, não estava disposto a ceder à
luxúria do fidalgo e resolveu usar o seu engenho e arte. Reuniu com os criados
do senhor e convenceu-os a pedir uma audiência ao Rei. Os criados preveniram-no,
contudo, que o D. Sapo tinha na corte muitos amigos e que a palavra dos servos,
nunca seria considerada.
Mas o irreverente jovem tinha outras ideias: na
audiência, ele e os criados pediram que lhes fosse autorizada a morte de um
sapo terrível que tinha aparecido em Cardielos há alguns anos, que roubava a
pureza às noivas e a todos atacava. O Rei mandou então que tão vil praga, esse
sapo horrendo, fosse morto à sacholada.
Perante tal sentença, mal regressaram a
Cardielos, os criados foram buscar as sacholas e de seguida, foram visitar D.
Sapo à sua alcova. Lá estava ele acompanhado e dedicado ao vício.
E foi assim, à sacholada que aplicaram sem
hesitações e sem remorso o édito real.
Ao saber da sua morte, os fidalgos amigos do D.
Sapo alertaram o rei da revolta dos camponeses, resultante na morte do senhor,
ao que este ordenou de imediato que os trouxessem à sua presença com o objetivo
de os sancionar.
Mediante a intenção do Rei de os mandar para o
cadafalso, os conjurados replicaram que tinha sido o Rei a dar a ordem de
morte, que os motivos apresentados eram legítimos e verdadeiros, e que isso era
atestado por testemunhas.
Após reflexão, El Rei devolveu-lhes a liberdade e
mandou-os de regresso a Cardielos.
Lá se foi o D. Sapo e o sofrimento de tantas
donzelas. E assim fica provado valor do engenho e da determinação.
Fonte: Alto Minho

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