HOJE É DIA DA ESPIGA!
No Minho não
se cultiva o trigo nem se festeja o dia da espiga! A tradição das Maias é a que
mais se assemelha no seu significado...
Hoje é Quinta-feira da Ascensão. Assim se
denomina este dia em virtude de no calendário litúrgico se comemorar a ascensão
de Jesus Cristo ao Céu, encerrando um ciclo de quarenta dias que se seguem à
Páscoa. Mas, este dia tem a particularidade de se celebrar também o "dia
da espiga" ou "quinta-feira da espiga". Manhã cedo, rapazes e
raparigas vão para o campo apanhar a espiga e flores campestres. Formam um ramo
com espigas de trigo, rosmaninho, malmequeres e folhagem de oliveira que pode incluir
centeio, cevada, aveia, margaridas, pampilhos e papoilas. Depois, o ramo é
guardado ao longo de um ano, pendurado algures dentro de casa.
Crê-se que este costume, com mais incidência nas regiões a sul
de Portugal, tenha as suas raízes num antigo ritual cristão que consistia na
bênção dos primeiros frutos, mas as suas características fazem-nos adivinhar
origens bem mais remotas, muito provavelmente em antigas tradições pagãs
naturalmente associadas às festas consagradas à deusa Flora que ocorriam por
esta altura e a que a tradição dos maios e das maias também não é alheia.
É crença do povo que a espiga apanhada na
quinta-feira da Ascensão proporciona felicidade e abundância no lar. Aliás, a
espiga de trigo propriamente dita representa a abundância de pão, o ramo de
oliveira simboliza a paz, as flores amarelas e brancas respetivamente o ouro e
a prata que significam a fartura e a prosperidade.
Noutros tempos, era costume na cidade, as moças que
estavam de criadas de servir, ainda arreigadas a antigas usanças das suas
terras de origem, pedirem às patroas para que lhes concedessem licença nesse
dia para irem apanhar a espiga... Não raras as vezes, um bom pretexto para irem
ao encontro do namorico, pois quase sempre apenas tinham permissão de folga ao
domingo. Aliás, devido em grande medida à liberdade que a festa proporcionava
aos jovens nesse dia, a apanha da espiga adquiriu bem depressa um sentido mais
malicioso sempre que as pessoas a ela se referem.
Atualmente, algumas ruas de Lisboa enchem-se de
vendedeiras de ramos de espigas, as quais são cada vez mais solicitadas
inclusivamente por pessoas cujas raízes culturais já nada tem a ver com tais
costumes mais próprios do meio rural. Provavelmente, atraídas pela beleza com
que se apresentam os ramos. Em todo o caso, procurando cumprir um ritual que
ajuda a preservar uma tradição!

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