ESCRITOR RAMALHO ORTIÃO NASCEU HÁ 190 ANOS

Passam hoje precisamente 190 anos sobre a data de nascimento de Ramalho Ortigão. O escritor foi um dos colaboradores que ajudou a dar vida ao histórico jornal vianense A Aurora do Lima, fundado em 1855, sendo o segundo jornal mais antigo de Portugal e o mais antigo em circulação contínua em Portugal Continental. 
A Ramalho Ortigão se devem muitas das crónicas que retratam a sociedade e os costumes da região do Minho, preciosas descrições etnográficas sobre as feiras, mercados e trajes tradicionais das mulheres de Viana do Castelo por volta de 1885, algumas delas publicadas n'As Farpas, como a que seguidamente se transcreve.
A aldeã do distrito de Viana é, por via de regra, tecedeira. É preciso não se confundir o que no Minho se chama tecedeira com o que geralmente se entende por teceloa. A tecedeira de Viana não se emprega numa fábrica nem tem propriamente uma oficina. Sabe simplesmente tecer como a menina de Lisboa sabe fazer crochet; e junto da janela engrinaldada por um pé de videira o seu pequenino tear caseiro, como o da casta Penépole, tem o aspecto decorativo de um puro atributo familiar, como um cavalete de pintura ou um órgão de pedais no recanto de um salão. A tecedeira trabalha mais para si do que para os outros nesse velho tear herdado e transmitido de geração em geração, e não tece servilmente e automaticamente, como nas fábricas, sobre um padrão imposto pelo mestre da oficina, mas livremente, como artista, ao solto capricho da sua fantasia e do seu gosto, combinando as cores segundo os retalhos da lã de que dispõe, contrastando os tons e variando os desenhos ao seu arbítrio. Tecer em tais condições é educar a vista e o gosto para a selecção das formas num exercício infinitamente mais útil que o de todas as prendas de mãos com que nos colégios se atrofia a inteligência e se perverte a imaginação das meninas de estimação, ensinando-lhes ao mesmo tempo como se abastarda o trabalho e como se desonra a arte.
(…) O marido minhoto, por mais boçal e mais grosseiro que seja, tem pela mulher assim produtiva um respeito de subalterno para superior, e não a explora tão rudemente aqui como em outras regiões onde a fêmea do campónio se embrutece de espírito e proporcionalmente se desforma de corpo acompanhando o homem na lavra, na sacha e na escava, acarretando o estrume, rachando a lenha, matando o porco, pegando à soga dos bois ou à rabiça do arado, e fazendo zoar o mangual nas eiras, sob o sol a pino, à malha ciclópica da espiga zaburra.
Fonte: Ramalho Ortigão in As Farpas

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