TABERNAS E CASAS DE PASTO DOS GALEGOS E MINHOTOS EM LISBOA

As tabernas e, antes delas, as casas de pasto, constituíram um dos principais pólos de ocupação dos galegos e, posteriormente dos minhotos, nos maiores centros urbanos. Não raras a vezes, as tabernas estavam associadas ao comércio de carvoaria, incluindo petróleo, greda para os fogareiros e as célebres "bolas" de carvão produzidas nas tulhas das carvoarias como aproveitamento do cisco que so´brava dos carvões.

De entre os minhotos em geral, foram sempre os courenses, limianos  e cerveirenses, com predomínio para os oriundos da freguesia de Covas, aqueles que porventura têm uma maior presença mantiveram neste ramo de atividade e, posteriormente, no comércio de restauração. A eles seguem-se os limianos e os cerveirenses, alguns monçanenses e barquenses.

O desenvolvimento industrial registado na segunda metade do século XIX – designado por Fontismo ou Regeneração – foi determinante para a deslocação das populações do interior sobretudo para Lisboa à procura de trabalho e melhores condições de vida. A esse fenómeno também não é alheio a construção da linha-férrea a encurtar distâncias outrora difíceis de vencer. E, quem não migrava para Lisboa, fazia-o para o Brasil.

Antes, porém, dos modernos restaurantes, marisqueiras e cervejarias, apenas existiam as velhas tabernas, carvoarias, retiros e casas de pasto, a maior parte das quais pertencentes aos nossos irmãos galegos.

A taberna – termo de origem latina que significa abrigo ou oficina – constitui um local de venda a retalho de vinho e outras bebidas alcoólicas, razão pela qual se tornou local de acolhimento de mercadores e viajantes à mistura com ébrios e outros vagabundos em virtude da regulamentação insuficiente da hora de encerramento, prolongando-se não raras as vezes pela noite fora. Para acompanhar o vinho, serviam-se geralmente uns petiscos para afagar a fome dos miseráveis clientes. Nos meios rurais, geralmente integrados na venda, constituía um local de convívio dos habitantes locais.

A par das tabernas, existiam as chamadas casas de pasto, assim designadas por serem destinadas a darem o pasto aos animais enquanto os seus donos feiravam, razão pela qual a maior parte situava-se em locais de realização das feiras ou no trajecto dos almocreves e outros mercadores faziam. O antigo “Retiro do Quebra Bilhas” no Campo Grande, junto à velha feira e da linha-férrea do Laramanjat, é disso um exemplo.

Com o tempo, os donos das casas de pasto viram aí uma oportunidade de também servirem o pasto aos donos dos animais. E, as velhas manjedouras dos animais cederam espaço às toscas mesas onde à sua volta se reuniam os novos clientes…

Entretanto, muitos lisboetas procuravam no ambiente rústico e pitoresco que a cidade não lhes proporcionava. Surgião então o costume da ida às hortas ou seja, aos retiros dos arredores da cidade onde se almoçava e ouvia-se cantar o fado, daí derivando o termo alfacinha pelo qual os lisboetas são identificados.

Também a organização das “excursões” às hortas foram sendo organizadas nas velhas tarbernas com a criação de grupos excursionistas e almoçaristas, com número limitado de membros e direito à exibição do respectivo quadro na parede do estabelecimento. Da fusão de destes grupos vieram a nascer algumas das colectividades de bairro que ainda perduram.

Geralmente associadas às tabernas, funcionavam separadamente as carvoarias com as suas grandes tulhas onde além do armazenamento também se faziam as “bolas” com o aproveiramento do cisco para alimentar os fogareiros. E também se vendia o petróleo para os pequenos fogões em uso à época.

Com o tempo e a adopção de novas regras de salubridade, o fim das antigas feiras e das romarias dos arredores da cidade, foram desaparecendo os antigos pregões e alterando os costumes dos lisboetas que passaram a virar-se para o futebol dominical e as matinés de cinema – o teatro de revista sempre foi mais caro! – os passeios nos jardins a ida à Feira Popular.

Entretanto, os enormes tóneis de vinho e as cartolas de aguardentes outrora existentes foram removidas e o vinho – e os seus consumidores! – deixaram de ser enxofrados. As sombrias tabernas e casas de pasto deram lugar aos novos restaurantes e cervejarias. E, durante algumas décadas, a cerveja chegou a destronar o hábito de beber vinho, tendência que tem vindo a ser revertida com a exigência e conhecimento dos novos consumidores.

Foto: Propriedade do autor (Família de limianos em Lisboa)

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PONTE DE LIMA: PADRE MANUEL MIRANDA – PÁROCO DE CABRAÇÃO – FOI O ÚLTIMO PADRE EXORCISTA DESTA LOCALIDADE!

GASTRONOMIA DO MINHO MAIS POBRE! FALECEU CHEF FILIPE MORGADO, DE PONTE DE LIMA - CRÓNICA DE TITO DE MORAIS

PONTE DE LIMA VAI TER ALDEAMENTO TURÍSTICO DE 3 MILHÕES EM REFÓIOS DO LIMA – CRÓNICA DE TITO DE MORAIS